A acreditar que "A Cultura segundo Sócrates" é um post que transmite informação credível, e com a respectiva vénia aos profissionais nele mencionados – do espectáculo, da representação e da 7ª Arte, da literatura – ficam dois livrinho que, depois de lidos, podem facilitar a abordagem da Cultura, coisa tão complexa e transversal. Um, assim como que uma base temática para o ensino, de Dietrich Schwanitz, tradução de Lumir Nahodil, edição da D. Quixote, 2004, com o título Cultura – Tudo o que é preciso saber, um sucesso de vendas, e um outro, de António José Saraiva, com o título Cultura, da colecção O que é, editado pela Difusão Cultural, 1993, um opúsculo para um entendimento minímo da Cultura, complementado por uma entrevista conduzida por Leonor Curado Neves.
Não. Não é só a falta de profissionalismo e criatividade dos designers que trabalham para o Partido Socialista. Há decerto mais qualquer coisa escondida, mais profunda, que orienta para o piroso, para a linha de leitura baixa. A campanha de 2005 do Partido Socialista proponha uma mudança de rumo através deste outdoor de uma pobreza gritante. Aliás, para sermos honestos, nem era preciso dizer ou fazer fosse o que fosse já que as eleições estavam ganhas, na fatalidade desta alternância. O mérito não devia ter recaído nos tipos do marketing, mas antes em Durão Barroso – daí o “porreiro, pá!” e o recente apoio à sua candidatura por parte de Sócrates –, e em Santana Lopes, na altura o bombo da orquestra. Os responsáveis partidários não são nada exigentes em relação à concepção das mensagens. Hoje, tempo em que é necessário produzir objectos inovadores e de qualidade também nas campanhas eleitorais, deparamos com esta coisa desconexa, um Sócrates rodeado de mulheres, uma mensagem visual em que não se consegue vislumbrar o sentido, por muito boa vontade. É razoável perguntar se será deliberadamente impenetrável? Ou será que o voto feminino é o suposto último reduto, pensando que colocar mulheres no suporte visual vai angariar votos femininos? Infantil. Já agora, quem é a rapariga? É a irmã do designer, é a account júnior da agência, é prima de Sócrates, quem é? É a linha média da imagem fas mulheres portuguesas? Adiante.
Não creio que a concepção deste outdoor seja já produto dos "homens de Obama". Por isso aguardo curioso o que vem para aí… É que isto de escrever discursos inteiros nos outdoors, folhas de papel de luxo, é um opulência que o PS devia evitar, reflectindo sobre o estado de penúria de grande parte dos portugueses. Campanhas à Terceiro Mundo, diríamos. Enfim... Se fosse “homem de Obama”, examinando a parolice modernaça que levou a imagem de Sócrates à exaustão – o que é uma proeza na Europa – por gozo proporia uma operação plástica, qualquer coisa como esta remodelação e, quem sabe, da saturação saltaríamos para o charme.
Em certa medida como contraponto, deixo um exemplo de uma peça de campanha do SPD, muito bem engendrada, sobre a protecção das espécies. Quem tiver curiosidade, também pode dar um salto ao Flickr e espreitar a campanha para as europeias.
Campanha bem concebida, apesar da derrota do SPD. Fica o link.
Quando se presume que Sócrates, apesar de ter muitas conversas com Manuel Alegre, na realidade quer é vê-lo longe e reformado, não tem lógica, excepto num quadro elaborado de fingimento, que esteja a fazer um enorme esforço para que o histórico integre as listas do PS, nem que seja no simbólico último lugar. Estamos sempre a aprender com as “inovações” desta nova cartilha “moderna”. Soares, como muitos frisam, tem muitos defeito. Mas poucas vezes a sonsice foi a base do seu comportamento e da comunicação política. Outras escolas... modernas também.
Neste humilde espaço na blogosfera ou no meu universo de relações, amigos incluídos, devia seguir os sinais dos tempos e fechar a boca. O caso político da TVI revela que Portugal se está a tornar muito, mas muito apertado para opiniões discordantes. Um comportamento bandalho recente, que prejudicou em muito, sem qualquer escrúpulo, a vida dum amigo, que foi liminarmente enxovalhado por uma imbecil com um lugar de destaque no elenco governativo, mostrando completo desprezo pelos seus, os da sua cor, devia ser mais uma razão para calar e fazer um longo retiro. Porém, por ser mais forte do que eu, lá vou publicar mais uma alfinetada, um excerto dum comentário, desta publicado no blog Portugal dos Pequeninos, do rabugento blogger João Gonçalves, que tantas vezes enfia o dedo na ferida certa. O post tem o título "Conversa franca?" e o comentário é de um tal Vasco. Fica o link para quem queira ler o post e os comentários.
Tal como uma certa franja PSD, (diga-se em abono da verdade), Sócrates representa a bolha tecnocrática dos milhares chefes de escritório que gostam de "medidas", "estratégias" e "planos", mas raramente avaliam com seriedade as suas premissas e os fundamentos dos seus "projectos". É de toda uma cultura tecnocrática que estamos a falar, que domina a sociedade. Que domine a sociedade é normal: é esse o lugar da tecnocracia... Agora que a tecnocracia domine aquilo que é a Pátria e a Política e as suas aspirações... É isso que não se entende. Verdade seja dita, é difícil a uma República fazer estas distinções essenciais.
No meu círculo de amigos, quando o PS sobrevivia na oposição, nunca poupei críticas a algumas personagens do governo de Durão Barroso ou de Santana Lopes e a este durante a sua presidência na Câmara Municipal de Lisboa. Antes, na última fase do governo de Guterres, vendo que uma certa tropa sequiosa de trocos estava a seguir à risca as "instruções", fazendo pela vidinha antes que a coisa acabasse, larguei críticas, sobretudo nas situações em que me parecia que alguns gananciosos desvendavam o dinheiro como o seu objectivo principal, aproveitando as suas posições de pequeno e grande poder. Apesar de ter sentido na carteira o cacau que brotou no tempo do cavaquismo, critiquei certas figuras públicas que estragavam o ambiente – entre elas Dias Loureiro e o negócio do saneamento em Marrocos –, dando sustentabilidade ao que mais tarde Guterres, na hora da desistência, classificou de "pântano". Conhecendo o PS desde 1974, fico incomodado quando penso sobre o que ele pode representar ou ser enquanto escola, retirados uns quantos valores e princípios orientadores. Talvez por isso reconheça em Sócrates muitos dos estigmas da cartilha "política", em particular quando tenta fazer com que a mentira pareça verdade – provavelmente inebriado com os fascinantes cenários construídos pela circunstância das suas próprias palavras… ou que lhe constroem. Porém, tendo em conta o frenesim duma certa cavalaria imbecil, gabo-lhe a persistência e o esforço, apesar de me parecer que os pequenos poderes, aliados aos grandes, o podem fazer passar de um bom líder para idiota útil no tempo dum fósforo. Não será exagerado concluir que nestes últimos tempos a mentira fez escola, convertendo-se não num instrumento político aceitável e positivo (nalguns casos, claro), mas antes num empecilho instalado no discurso e na descodificação deste. Será a insistência na mentira – não na verdade, como nos quer fazer crer a Dra. Ferreira Leite, veja-se a dificuldade da senhora dra. em a usar de maneira escorreita – que poderá acentuar o desaire do PS. Todavia, não é recomendável deixar de mentir, especialmente em política. O que é aconselhável é rever a maneira de dar forma às mentiras. Caso não se consiga alterar a construção do discurso, de modo a torná-lo mais autêntico e persuasivo, então talvez seja útil pensar em mudar o actor e escolher um menos cansado e mais convincente, um outro que consiga provocar palmas genuínas, mesmo mentindo. É que, em política, o cansaço, a saturação, a previsibilidade não perdoam.
Os jovens Spin Doctors andam nervosíssimos com o mau resultado a que conduziram as suas tácticas manipulativas. Nota-se que estão com dificuldade em inverter a tendência negativa. Constata-se também que há um frenesim descontrolado para mostrar serviço, tanto na selecção das supostas notícias favoráveis, erradamente misturando-as com a imagem do PM, como em relação à informação crítica que deve ser censuradas. Leva-se à exaustão a imagem do PM/José Sócrates. Numa altura em que se devia começar a engendrar maneiras de atenuar a imagem negativa de José Sócrates - repare-se, por exemplo, na insistência em colar o "seu rosto" à Pescanova - não se sabe separar com inteligência os quatro segmentos de Comunicação – o do Primeiro-Ministro, o de José Sócrates, o do Secretário-Geral do Partido Socialista e o do Governo. Confunde-se tudo. É um caldeirão. Faz-se Comunicação como quem lambe as botas de Sócrates. Enfim, quem sabe, incompetências ou excessos de facturação. Terão, pois, oportunidade, estes sublinhados do artigo de Fernando Sobral, com o título “Um País fácil”, publicado no Jornal de Notícias, a propósito do desabafo de Mário Lino.
Mário Lino não gosta de viver em infantários. Por isso ninguém pode ficar surpreendido por ele ter declarado que já não tem "idade para estar no Governo". O ministro sente-se desconfortável, o que é compreensível. -- Há é quem seja demasiado novo para o integrar. O problema deste Governo coloca-se nesse nível: muitas das suas iniciativas políticas estão ao nível do jardim-escola. Não admira que Mário Lino se sinta como um mordomo a gerir uma mansão de miúdos irrequietos. -- Não admira que Mário Lino, querendo ler Eça ou Teixeira de Pascoaes, não tenha paciência para quem está ao nível do Pato Donald.
A transmutação de José Sócrates e a disponibilidade de Louçã para ser primeiro-ministro e formar governo, em meu entender, são erros de palmatória dos dois líderes partidários. A partir destas recentes eleições, tanto um como outro, deviam ponderar mais as intervenções públicas. Sócrates não percebeu que o “castigo” eleitoral em pouco tem a ver com a sua comunicação pessoal. Loução, por sua vez, não traduziu correctamente a grande parte dos votos com que o BE foi presenteado. Creio que poucos quererão um Sócrates lamechas, assim como a maior parte dos votantes no BE desejarão que Louçã forme governo e aplique o que de facto lhe vai na cabeça. - Por intuição, pegando num caso recente, poderemos arrematar que o sucesso de Obama foi proporcional ao estrago provocado por Bush. A democracia dá a possibilidade ao colectivo de criar equilíbrios e preencher vazios políticos. Em Portugal, excluindo as presidenciais, vigora o princípio de que as eleições perdem-se e não se ganham, como alguns apregoam com insistência. Revejam-se casos passados e chegaremos a essa constatação. Há situações, por exemplo, em que não seria preciso sequer fazer campanha (permitindo, assim, aos cabeças de lista, embolsar para proveito próprio mais sobras dos dízimos presenteados pelos particulares, chafurdando em dinheiro vivo). Também em relação a certas sondagens, pode-se estabelecer que são cada vez mais um suporte de manipulação da informação, ao invés de instrumento científico. Por isso, revela-se crucial a necessidade de encarar com maturidade a definição das estratégias de comunicação, de maneira a sustentar com inteligência as lideranças, obrigando os “peritos” a fazerem um esforço de qualificação das suas sínteses, sustentando em argumentos confiáveis as propostas e opções, evitando aviar a Comunicação como quem vende peixe podre ao quilo, afastando de vez o modo de entender os eleitores como uma tribo que se manipula com conceitos infantis, por gente infantil. Ou então, dispensar os técnicos e seguir as intuições. Sócrates não pode andar ao sabor dos alvitres de amadores (ou de técnicos a tempo parcial, mas com ambições políticas). A continuar assim, será gozado por quem o manipula e aumentará o seu estado ridículo. A continuar assim, é provável que se coloque de novo a necessidade de ponderar a ideia de que as eleições se perdem … para conforto dos seus alternativos adversários. Sócrates, tendo já demonstrado que gosta muito do Poder e do que este proporciona, não deve adulterar a sua personalidade, nem sequer exercitar mudanças profundas na dramaturgia a que nos habituou. Ressoará cada vez mais a falso e a representação baixará para um certo diletantismo em termos teatrais, longe do que se exige a um profissional da persuasão. Insistindo na transmudação, Sócrates, arguto, certamente cansado de arregimentar o pessoal e apagar fogos, deixará transparecer que já está farto e contrariado. E isso pode ser fatal. Sócrates apresentou-se como “animal feroz”. Não pode, por isso,entrar com pele de cordeiro no tempo da maioria relativa. Ou será que também já está a fazer as malas?
…para equilibrar outras com um certo mau aspecto. No título destes posts de coisas com bom aspecto e certamente deliciosas poderia usar o esquema do Luís, para ganhar dias sem escrita e estabelecer um título de rubrica assim ao género “Seria feliz aqui”, desanuviando e intervalando quando não há nada a anotar. Esta “banana com polpa de manga” foi apanhada no blogueTertúlia de Sabores, em destaque no Sapo numa pequena lista diária que espreito. Tertúlia de Sabores é um blogue muito bom e produzido com um cuidado notável. Fica a receita, tão elementar que até o nosso primeiro-ministro a conseguirá confeccionar. Deixo também o respectivo link, como mandam as regras.
Banana com Polpa de Manga 2 bananas 1 lata de polpa de manga - Corte as bananas às rodelas e ponha em tacinhas individuais. Abra a lata de polpa de manga e ponha a gosto por cima das bananas. Sirva fresco e saboreie com calma para apreciar a conjunção de sabores Quanto à polpa de manga que sobrar, podem sempre comê-la à colher. Sem lume, sem condimentos exóticos, tão simples quanto isto. Para amenizar o amargo de boca do dia em que José Sócrates foi achincalhado por uma fauna de futuros “artistas”, alguns, admita-se, com muito mau aspecto, alunos da Escola Secundária Artística António Arroio, um pouco confusos, creio, sobre o que se entende por “fascista” e, quem sabe, quanto ao Manifesto Futurista de Filippo Tommaso Marinetti. Uma exibição desnecessária. Coitado do Sócrates que até foi lá com boas intenções, para declarar um certo enternecimento pelas artes – preocupações de primeira linha, diz ele –, e para tratar das “falhas tectónicas”, como disse o outro. Ingratos… terá pensado a Exma. Sra. Ministra da Educação. Convirá, depois de saborear a iguaria mencionada, dar um saltinho ao site da Escola António Arroio, que apresenta uma explicação sensata sobre os acontecimentos do passado dia 22, para não sobrarem mal entendidos sobre o estabelecimento de ensino.
“Erectos sobre o pináculo do mundo, mais uma vez lançamos o nosso desafio às estrelas.” Destaque do Manifesto Futurista de Marinetti
Disseram-me que José Sócrates terá articulado um pensamento que deveria colher a nossa melhor atenção, considerando que foi preciso uma certa dose de coragem para dizer tal coisa:
A geração anterior hipotecou a minha geração e eu estou a fazer tudo para não hipotecar a próxima geração. José Sócrates, Primeiro-Ministro de Portugal, no dia 25 de Abril de 2008
Claro que devemos dar o devido desconto, tendo em conta o contexto da coisa proferida, o que nos leva de imediato a pensar nos investimentos, particularmente os do Dr. Pinho, que não são noticiados. Noutra perspectiva, extrapolando com uma pitada de mal-dizer, será legítimo deduzir que esta genuína confissão foi o aguardado pedido de desculpas ao Manuel Alegre? Aguardo com curiosidade pela resposta dos representantes da geração anterior.
Espero que os colegas jornalistas de Manuela Moura Guedes se indignem tanto com a queixa judicial desta contra Sócrates quanto o fizeram antes sobre os processos do primeiro-ministro contra jornalistas. Já me sentei.
Há uns dois anos, para tornar a coisa mais fiável, decidi que o meu voto seria divido em sete partes. Assim, tipo criançola no júri dum concurso, nos temas que me interessam, tenho vindo a preenche-las, imaginando as várias hipóteses de arbítrio, ora assestando a cruz num lado, ora não pondo simplesmente a cruzinha. Mais um jogo, em suma. Depois de assistir a uma interessantíssima entrevista (e respectivos comentários), uma oportunidade para avaliar um compactado de temas políticos, portanto, também a possibilidade de colocar a cruz e perfazer mais uma das cinco partes que faltam para completar o meu voto no PS, digamos que não fiquei nada confiante em relação ao futuro, sabendo, porém, para minha enormíssima tormenta, neste "Cabo das Tormentas", que para o Exmo. PM, qual Vasco da Gama, tanto se lhe deu, como se lhe dá a minha insignificante opinião, sumida entre milhões de opiniões de outros insignificantes populares. E como suspeito das subtis inclinações do meu coração, que atraiçoam os meus miolos – como diria um amigo, que lá terá as suas suspeitas:” ele não parece, mas é de Esquerda” – para não coisificar a crítica, acho que por agora me fico com este poema lindíssimo de José Régio (1901-1969) – pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira – declamado pelo admirável João Villaret, que dá um certo alento nesta conjuntura de desânimo, manifestamente descontrolada.
Cântico negro
Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que eu os ouvisse Quando me dizem: "vem por aqui!" Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) E cruzo os braços, E nunca vou por ali... A minha glória é esta: Criar desumanidades! Não acompanhar ninguém. — Que eu vivo com o mesmo sem-vontade Com que rasguei o ventre à minha mãe Não, não vou por aí! Só vou por onde Me levam meus próprios passos... Se às coisas que pergunto em vão ninguém responde Porque me me dizeis vós: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos, Redemoinhar aos ventos, Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, A ir por aí... Se vim ao mundo, foi Só para desflorar florestas virgens, E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem Para eu derrubar os meus obstáculos?... Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós, E vós amais o que é fácil! Eu amo o Longe e a Miragem, Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas, Tendes jardins, tendes canteiros, Tendes pátria, tendes tetos, E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios... Eu tenho a minha Loucura! Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura, E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios... Deus e o Diabo é quem me guia, mais ninguém! Todos tiveram pai, todos tiveram mãe; Mas eu, que nunca principio nem acabo, Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções, Não me peçam definições! Ninguém me diga: "vem por aqui"! A minha vida é um vendaval que se soltou, É uma onda que se alevantou, É um átomo a mais que se animou... Não sei por onde vou, Não sei para onde vou Sei que não vou por aí!
José Régio, in Poemas de Deus e do Diabo, 1925
Nota: claro que seria disparatado sugerir uma remodelação à beira das urnas. Mas como este povo é singular, se calhar a coisa ainda descamba para uma segunda maioria absoluta. Tudo é possível.
Esqueceu o desemprego, o desajuste entre a realidade pungente, na qual estamos mergulhados, e a mudança das instituições; a falência dos bancos, a corrupção e a própria questão da liberdade. Sócrates tinha opções: não as tomou ou não as quis tomar. A sociedade pedia-lhe (e até lhe exigia) respostas. O método de pensamento que utilizou é-lhe habitual. Passa ao lado do que se lhe pedia, exigia ou perguntava. Sob a capa de falar de problemas "fracturantes", nunca assumiu, com a coragem requerida, enfrentar os dilemas que o excedem, mas que são inseparáveis dos princípios elementares do nosso viver colectivo. Baptista Basto, in Dn no Sapo
*A Era do Vazio, de Gilles Lipovetsky, um ensaio sobre o individualismo contemporâneo, foi editado em 1983 pela Relógio D’Água
Será perda de latim explicar as particularidades das várias conjunturas internas por que passou o Partido Socialista Português, desde os velhos tempos de Mário Soares e do Secretariado, até aos dias de hoje em que já se consegue eleger um Secretário-Geral por quase 97% dos votos, sem mais concorrentes. Caminhando é que se faz o caminho - parafraseando o Dr. Soares. E foi, pois, assim, caminhando, que o PS chegou aqui. Temos de reconhecer que o pensamento é mais adequado aos tempos. Pragmático, prático, sem emoção, bem representado. E esta sentença do Exmo. Sr. Dr. Vitalino Canas, retirada do site do PS, expressa com precisão o espírito da coisa em vigor.
As pessoas quando olham para o PS não estão à espera que nos esgotemos em debate internos. Estão à espera de um sinal, de uma mensagem. A organização interna é apenas um meio para que esse projecto possa ser desenvolvido. Exmo Sr. Dr. Vitalino Canas
Keep your friends close, but your enemies closer Mario Puzo, "The Godfather"
Um departamento governamental independente, que tem um website aberto a todos, o Serious Fraud Office, deve ter mais que fazer do que soltar informação apenas para criar um clima político crítico em Portugal, desgastar o PM autóctone e provocar uma situação insustentável para o governo com vários actos eleitorais à porta? Não me parece uma conjectura consistente, embora seja um assunto apetitoso e que os media estão a explorar com zelo e à exaustão, entretendo com muita palha o cidadão comum. Tal como não pode ser aceitável considerar que as investigações aqui tenham o propósito oculto de aniquilar politicamente José Sócrates, em conluio com o Serious Fraud Office, o Grupo Carlyle, o MI5, a CIA ou o FSB - e, claro está, o Fenprof. Logo, essa do “poder oculto”, que serve para enfatizar a dramaturgia, parece-me conversa de gajo de cervejaria - como eu - que ao fim de cinco imperiais vê conspiração em cada copofónico da mesa do lado. A situação é para ter calma e bom-senso, contendo a língua. Para cabala já chegou Ferro Rodrigues, que ainda não se tinha sentado na cadeira, já pediam a sua cabeça. No fundo, se não acreditarmos na Justiça, acreditamos em quê? Na Política profissional?
Era escusado associar José Sócrates ao tio Monteiro, aos offshores, ao filho do tio (o primo) também Monteiro, aos Neurónios Criativos, ao pai, a Vilar de Maçada, a Frank Carlucci, à casa de campo, ao arquitecto que pariu a coisa, aos fluxos e refluxos da massa… Ao grupo Carlyle... Era escusado. É, pois, precisamente como o professor Rebelo de Sousa diz: “uma maçada ter uma família assim.” - embora não tenha explicitado a que Família se referia. Sócrates, na actual situação desgraçada, não se pode distrair com miudezas que o tempo devia ter levado.
Dino Segre, Pitigrilli, assoava-se e olhava para o lenço no final de cada dia. Assim, tão rústico quanto isso, observava o dia passado, com a mesma atitude de quem fecha a caixa e contabiliza a receita do dia. Pode ser uma boa prática. Exerço-a apenas de longe em longe e tento revisitar os factos por categorias, temendo sempre que se sobreponham novas teses ainda mais malvadas. Qual formiguinha desamparada, como se de um acto de expiação se tratasse, depois da fuga de Guterres com a alma cristã despedaçada - consciente de que a sua vocação não era viver mergulhado em pecados capitais, nem tão pouco redimir a esquerda não moderna, uns malditos que lhe andavam a estragar o fim de festa - perdi o meu tempo a ser endrominado por Barroso, pródigo a distribuir mimos e penosos atentados à inteligência, personagem perversa que ainda hoje deve agradecer muito aos deuses, a Guterres, ao processo Casa Pia, o facto de ter podido numa manhã de glória assobiar no duche com a consciência plena do passo que iria dar ao ler o juramento de estado, comprometendo-se a não fugir para vidas com mais mordomias, zarpando logo de seguida, como era de esperar neste mundo tão primário quanto perigoso e estupidamente competitivo. A coisa passou e deixou má memória, sobretudo o correctivo resultante da obsessão da doutora economista. O episódio seguinte foi uma aventura arriscada, que colocou em perigo todos por atacado, desde os novos-ricos aos mais desgraçados. Teve, porém, o seu lado positivo, já que o público assistiu a divertidos improvisos, uma (des)boca de cena descontrolada, um outro Teatro à margem do argumento formal e, quem sabe, o eleitor/contribuinte/consumidor, na qualidade excepcional de espectador, terá enxergado a mentira sobre a qual tudo se desenrola. As cenas da desistência de Durão e o governo de Santana ainda hoje nos levam a pensar sobre a lógica das elites, aquelas que nos obsequeiam com um pratinho de lentilhas e uma côdea de pão nos dias caprichosos em que precisam que tenhamos a impressão de sermos importantes. Foi um tempo com a sua piada, sendo que nunca se viram tantas facas prontas a serem cravadas nas costas de um tipo que, presumo, até deve ser porreiro para tomar um copo e discutir os podres das gentes e das misérias vaidosas deste país. Aí percebemos que talvez houvesse um pouco mais de civilidade (e habilidade) no Partido Socialista quando se trata de remover obstáculos políticos, já que no PSD é o grande espalhafato e no PS a exclusão faz-se pela calada. Foi-se Ferro e Pedroso e a coisa mudou de figura. Sócrates tornou-se viável. Não posso afiançar, tenho apenas uma vaga ideia, foi há tanto tempo que parece uma eternidade, mas creio que nas eleições internas votei em Sócrates. Se não estou em erro, na altura tratava-se de optar por alguém que tivesse estofo, ambição e margem de manobra interna para fazer o caminho da oposição, e no final ainda ter fôlego para ir à luta pelo poder, independente das características e convicções pessoais - prescindindo, claro está, das chatices ideológicas da tal esquerda socialista que não é moderna (retrógrada?), que nunca mais acorda para o mundo concreto que, para irritação do Exmo. Sr. Dr. Vitorino, não se habitua. O passo seguinte foi linear e previsível. Nessa circunstância, creio que também votei no Partido Socialista - por consequência em José Sócrates -, mas mais uma vez não posso afirmá-lo com toda a certeza, vista já ter passado tanto, mas tanto tempo, vistas e revistas milhões de imagens de José Sócrates levadas ao esgotamento, ouvidos centenas de milhar de ditos por não dito, retidas milhares de simulações de cenouras e promessas de doces, que até parece ter sido há mais de meio século, enfim, uma estafa. Na altura, no início, entre outras leituras, armado em “chico saloio“, a minha contribuição para as “campanhas de alfabetização” foi ler o Programa de Governo do Partido Socialista, não para aprender os segredos do discurso e desenrascar a vidinha, nem saborear uma emaranhada obra de ficção ou decifrar um policial, mas antes para me certificar do desvio que politicamente se estava a processar no PS, um desvio ideológico (moderno?) vincando com fúria indisfarçável as diferenças do tempo soarista, tentando, com subtilezas, não replicar algumas politicas, hesitações e fragilidades do tempo guterrista, evidenciando políticas económicas e financeiras sobrepostas aos propósitos vagamente estruturantes dos procedimentos que movem o Partido Social Democrata. Todavia, a apregoada ideia de um rumo novo, condimentada pelo slogan evangélico “Vamos acreditar”, desde o início que começou a evidenciar um conteúdo surpreendente, obrigando um dos estrategas a vir gritar a necessidade do cidadão eleitor/contribuinte/consumidor se habituar às contrariedades e ao vazio da carteira, sobretudo a classe média. Há dois ou três dias atrás, ouvindo o Primeiro-ministro a elogiar as reformas do sistema público de Saúde (eu diria de Doença), veio-me à memória um acontecimento recente que me levou às Urgências de um hospital que dizem de referência, onde a espera foi tão só de doze horas, sempre com a resposta desumana de “aguarde pela chamada”, um exercício de resistência à dor que decerto reservou um lugar no céu ao meu familiar. Estas amarguradas certificações têm sido frequentes ultimamente, retomando a certeza de que há quatro países em funcionamento: o dos muito ricos, a trezentos à hora nas auto-estradas, que nem sequer dão por nós - estão-se nas tintas para a maralha e para o governo; a dos novos ricos, a imitar os muito ricos, que a duzentos à hora dizem acreditar na pregação do PM, conquanto o “rumo novo” lhes entre directamente no bolso; o dos outros, incluindo a classe média baixa, que vivem no país autêntico e que sofrem na vida a encenação em cena; o do palco, o dos actores politicamente correctos no foco das luzes da ribalta, que apenas estão preocupados em seguir o argumento, na ânsia de aplausos e outras compensações, alheados dos outros três países. É isso: passaram apenas três anos e pouco, mas o tempo parece uma eternidade. É isso: para mostrarem serviço, esgotaram Sócrates levando-o à exaustão, estado que se começa a notar. Não tarda nada, já nem conseguimos olhar para a televisão, nem tão pouco escutar a sua voz. E lá se vai a cenoura da Finlândia pendurada em frente ao focinho dos burros, essa imagem em que ficámos suspensos, esquecendo a geografia, as diferenças de clima, e as dissemelhanças entre povos. Finlândia? Nós? Só lá para o próximo século.
Mais logo ( RTP 1, 20h50), o Exmo. Sr. Primeiro-ministro vai-nos explicar, bem explicadinho, como chegámos a esta situação desgraçada e como os discursos para criancinhas e os contos de fadas, perante os factos, lentamente se converteram em pessimismo na margem do puro e duro, sobretudo para a classe média que desapareceu na cartola de um pérfido ilusionista. Por isso, para distrair, nada mais apropriado do que dois youtubes da mais famosa pop star da Rússia, que vai começar a apostar neste nosso mercado em que a língua de contacto continua a ser o inglês. Vladimir Putin adora a cantora, com justificada admiração. Por isso os apoios vão ser muitos. A voz é invulgar. E como a própria diz: “ A Madonna tem os seus músculos, eu tenho a minha voz”. Ouçam, portanto, agora, sendo certo que mais logo vão ter dificuldade em adormecer quando simpático Exmo. Sr. Eng. José Sócrates (segundo o eminente Exmo. Sr. Dr. Vitorino, o tal líder forjado já depois do 25 de Abril... portanto...), disser aquilo que já sabemos que vai dizer, acrescentando, provavelmente, algumas pistas sobre o nosso futuro trágico, mas pintando-o com cores suaves, para amenizar a coisa, é oportuno registar que a OCDE prevê um aumento do desemprego em 2008 e 2009. As previsões são por atacado - muitas apenas num falar por falar e marcar presença - e vindas das reconhecidas eminências do regime, mas as soluções inteligíveis ou estão depositadas em offshores, inacessíveis ao cidadão comum, não vá o povão tecê-las, ou, na realidade, para nossa desolação, simplesmente não existem nas excelentíssimas cabeças das nossas "elites". Estamos perdidos, reconheçamos. Perdidos e sem dinheiro. O discurso político geral é, portanto, um bom sedativo, tendo em conta que a selecção nacional, o nosso último reduto de orgulho, não nos deu o espectáculo que desejávamos e assim não nos injectou a dose de auto-estima para superar o estado de carência. Vejam pois os excelentes youtubes de Valeriya e preparem-se para logo à noite assistir à entrevista com o “menino d’oiro”, momento televisivo que deixará o “menino guerreiro” ainda mais irritado. Pois é: p’ró menino e p‘ra menina.
O Exmo. Sr. Eng. José Sócrates, na qualidade de Primeiro-ministro, afirmou que não está a dar, entenda-se, à quase extinta classe média, que nos últimos sete anos tem sido espremida com admirável eficiência, certamente a ser comida em prato frio. Diz ele também que a coisa está virada para os “sectores mais débeis da nossa sociedade”, evitando, com esta terminologia, usar o termo pobreza, que alastra, traduzindo-a por fraqueza, neste tempo estúpido que nos está a acontecer. O Exmo. Sr. Eng. José Sócrates certamente saberá que liquidada a classe média, fazendo cair nela o ónus das crises, não será dando migalhas aos pobres - ou desfavorecidos - que conseguirá aquilo que neste momento pretende... Votos.
Nesta coisa fluída de águas profundas e em fase de pré-campanha eleitoral, penso que a maioria dos portugueses ainda não percebeu quem ajuda quem - se é o António Costa que ampara Sócrates ou se será o contrário. Inclino-me mais para o António Costa, tendo em conta o exagero dos cabelos brancos do nosso PM.
"Ontem quando cheguei a casa tirei uns quantos profiteroles que ainda tinha no congelador, vai daí, como não tinha nem queijo nem espinafres, fiz um molho branco espesso com farinha, leite e uma noz de manteiga, temperei com sal, pimenta e noz moscada, à parte fiz um refogado com cebola, alho e azeite, juntei uma lata de atum desfeito, umas azeitonas verdes picadas e um molho de coentros picados. Misturei o atum com o molho branco e recheei os profiteroles.
Podem ser servidos como entrada ou acompanhados por uma salada para um jantar leve."
Relatos Verídicos Experiências de Quase-Morte Manuel Domingos,
Patrícia Costa Dias,
Paulo Alexandre
O nosso cérebro, é, na realidade, uma máquina fabulosa que consegue efectuar qualquer coisa como alguns muitos milhões de operações por segundo (…). Mas não tenhamos ilusões, (…) a essência do nosso ser não é apenas algo produzido por umas moléculas, por uns átomos.
Manuel Domingos
Presidente da Sociedade Portuguesa de Neuropsicologia
Le point de départ de ce livre est, en janvier dernier, une conversation de Bernard-Henri Lévy avec Nicolas Sarkozy.
De quoi le progressisme contemporain est-il malade et quels sont les symptômes,
les figures, les causes, de cette maladie ? C'est la seconde question qu’il soulève, plus complexe, et qui le conduit à des développements
sur, pêle-mêle, l’anti-américanisme, les mythes de l'empire, la question de l'Islam, le retour de l'antidreyfusisme,
les illusions de l'anti-libéralisme ou le parfum munichois qui rôde autour de nombre de discussions sur la guerre et sur la paix.