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When you lose, don't lose the lesson

quarta-feira, julho 30, 2008

Ora… apetece-me perder o latim



Dino Segre, Pitigrilli, assoava-se e olhava para o lenço no final de cada dia. Assim, tão rústico quanto isso, observava o dia passado, com a mesma atitude de quem fecha a caixa e contabiliza a receita do dia. Pode ser uma boa prática. Exerço-a apenas de longe em longe e tento revisitar os factos por categorias, temendo sempre que se sobreponham novas teses ainda mais malvadas.
Qual formiguinha desamparada, como se de um acto de expiação se tratasse, depois da fuga de Guterres com a alma cristã despedaçada - consciente de que a sua vocação não era viver mergulhado em pecados capitais, nem tão pouco redimir a esquerda não moderna, uns malditos que lhe andavam a estragar o fim de festa - perdi o meu tempo a ser endrominado por Barroso, pródigo a distribuir mimos e penosos atentados à inteligência, personagem perversa que ainda hoje deve agradecer muito aos deuses, a Guterres, ao processo Casa Pia, o facto de ter podido numa manhã de glória assobiar no duche com a consciência plena do passo que iria dar ao ler o juramento de estado, comprometendo-se a não fugir para vidas com mais mordomias, zarpando logo de seguida, como era de esperar neste mundo tão primário quanto perigoso e estupidamente competitivo. A coisa passou e deixou má memória, sobretudo o correctivo resultante da obsessão da doutora economista. O episódio seguinte foi uma aventura arriscada, que colocou em perigo todos por atacado, desde os novos-ricos aos mais desgraçados. Teve, porém, o seu lado positivo, já que o público assistiu a divertidos improvisos, uma (des)boca de cena descontrolada, um outro Teatro à margem do argumento formal e, quem sabe, o eleitor/contribuinte/consumidor, na qualidade excepcional de espectador, terá enxergado a mentira sobre a qual tudo se desenrola. As cenas da desistência de Durão e o governo de Santana ainda hoje nos levam a pensar sobre a lógica das elites, aquelas que nos obsequeiam com um pratinho de lentilhas e uma côdea de pão nos dias caprichosos em que precisam que tenhamos a impressão de sermos importantes. Foi um tempo com a sua piada, sendo que nunca se viram tantas facas prontas a serem cravadas nas costas de um tipo que, presumo, até deve ser porreiro para tomar um copo e discutir os podres das gentes e das misérias vaidosas deste país. Aí percebemos que talvez houvesse um pouco mais de civilidade (e habilidade) no Partido Socialista quando se trata de remover obstáculos políticos, já que no PSD é o grande espalhafato e no PS a exclusão faz-se pela calada. Foi-se Ferro e Pedroso e a coisa mudou de figura. Sócrates tornou-se viável.
Não posso afiançar, tenho apenas uma vaga ideia, foi há tanto tempo que parece uma eternidade, mas creio que nas eleições internas votei em Sócrates. Se não estou em erro, na altura tratava-se de optar por alguém que tivesse estofo, ambição e margem de manobra interna para fazer o caminho da oposição, e no final ainda ter fôlego para ir à luta pelo poder, independente das características e convicções pessoais - prescindindo, claro está, das chatices ideológicas da tal esquerda socialista que não é moderna (retrógrada?), que nunca mais acorda para o mundo concreto que, para irritação do Exmo. Sr. Dr. Vitorino, não se habitua.
O passo seguinte foi linear e previsível. Nessa circunstância, creio que também votei no Partido Socialista - por consequência em José Sócrates -, mas mais uma vez não posso afirmá-lo com toda a certeza, vista já ter passado tanto, mas tanto tempo, vistas e revistas milhões de imagens de José Sócrates levadas ao esgotamento, ouvidos centenas de milhar de ditos por não dito, retidas milhares de simulações de cenouras e promessas de doces, que até parece ter sido há mais de meio século, enfim, uma estafa. Na altura, no início, entre outras leituras, armado em “chico saloio“, a minha contribuição para as “campanhas de alfabetização” foi ler o Programa de Governo do Partido Socialista, não para aprender os segredos do discurso e desenrascar a vidinha, nem saborear uma emaranhada obra de ficção ou decifrar um policial, mas antes para me certificar do desvio que politicamente se estava a processar no PS, um desvio ideológico (moderno?) vincando com fúria indisfarçável as diferenças do tempo soarista, tentando, com subtilezas, não replicar algumas politicas, hesitações e fragilidades do tempo guterrista, evidenciando políticas económicas e financeiras sobrepostas aos propósitos vagamente estruturantes dos procedimentos que movem o Partido Social Democrata.
Todavia, a apregoada ideia de um rumo novo, condimentada pelo slogan evangélico “Vamos acreditar”, desde o início que começou a evidenciar um conteúdo surpreendente, obrigando um dos estrategas a vir gritar a necessidade do cidadão eleitor/contribuinte/consumidor se habituar às contrariedades e ao vazio da carteira, sobretudo a classe média.
Há dois ou três dias atrás, ouvindo o Primeiro-ministro a elogiar as reformas do sistema público de Saúde (eu diria de Doença), veio-me à memória um acontecimento recente que me levou às Urgências de um hospital que dizem de referência, onde a espera foi tão só de doze horas, sempre com a resposta desumana de “aguarde pela chamada”, um exercício de resistência à dor que decerto reservou um lugar no céu ao meu familiar. Estas amarguradas certificações têm sido frequentes ultimamente, retomando a certeza de que há quatro países em funcionamento: o dos muito ricos, a trezentos à hora nas auto-estradas, que nem sequer dão por nós - estão-se nas tintas para a maralha e para o governo; a dos novos ricos, a imitar os muito ricos, que a duzentos à hora dizem acreditar na pregação do PM, conquanto o “rumo novo” lhes entre directamente no bolso; o dos outros, incluindo a classe média baixa, que vivem no país autêntico e que sofrem na vida a encenação em cena; o do palco, o dos actores politicamente correctos no foco das luzes da ribalta, que apenas estão preocupados em seguir o argumento, na ânsia de aplausos e outras compensações, alheados dos outros três países.
É isso: passaram apenas três anos e pouco, mas o tempo parece uma eternidade. É isso: para mostrarem serviço, esgotaram Sócrates levando-o à exaustão, estado que se começa a notar. Não tarda nada, já nem conseguimos olhar para a televisão, nem tão pouco escutar a sua voz. E lá se vai a cenoura da Finlândia pendurada em frente ao focinho dos burros, essa imagem em que ficámos suspensos, esquecendo a geografia, as diferenças de clima, e as dissemelhanças entre povos. Finlândia? Nós? Só lá para o próximo século.


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