Sensaborão

O aspecto gráfico do blogue do senhor Dr. Pacheco Pereira, um conservador de esquerda, emboscado no centro direita, é tão desenxabido que até parece que a ASAE por lá passou. Mesmo a escrita, que abordando coisas cruciais, é tão sensabor que perde grande parte do seu poder de influência.
Deite-lhe sal, senhor doutor, se faz o favor. A vida não é um frete.
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“João Silva está longe de o saber“
Creio que lhe palpita, mas na realidade não sabe. Não sabendo em concreto, mas convicto de que há coisas que o ultrapassam, João Silva acostumou-se à sensação de estar a ser vigiado, adaptou-se à ilusão de liberdade e não reage à possibilidade de ser manipulado. Consciencializou-se da sua impotência e deixou correr a fantasia da liberdade, da democracia, fazendo-se de idiota, para seu descanso, desde os tempos em que teve de resolver por si os equívocos implacáveis das relações humanas. Desenvolveu mecanismos de indiferença, interiorizou hierarquias de coisas essenciais, marcou-lhes os tempos e os limites, determinou rotinas, afivelou máscaras, assumiu papéis e fixou personagens a teatralizar em casa, na família, no emprego, no seu núcleo de relações e na atitude de sociabilidade. Sabe do palco ideal do fingimento onde vigoram os discursos e dramaturgias metódicas, com o intuito de o enganar. Sabe, pois, de que palavras é feito o enredo da mentira, que imita, tantas vezes, em desespero de causa, com o desejo de também ser escutado e bem sucedido. E sabe que não pode deixar de comprar o pão, de ter um tecto, de ter de pagar impostos. De se endividar para ter o que vê nas televisões, o que os outros têm. Sabe-se cercado. Sabe, João Silva, que há férias para gozar, natais para festejar, Páscoas para passear, filhos para educar. Doenças para tratar. Sabe, apesar de não parecer, que há a Europa e países emergentes e há melhor, muito melhor do que este pacote de falta de memória e de culpas que morrem solteiras. Presume, porém, dos culpados do nosso estado desgraçado. Tem fortes suspeitas, mas, na verdade, não sabe como e quem.
João Silva não sabe, por exemplo, do labirinto que nos levou a ganhar a liberdade e a perdê-la de seguida. Dos nomes que protagonizam o fio da memória e se inscrevem nas peças do puzzle das conspirações, dos golpes, das cobardias... E por isso é vigiado. Precisamente para a sua vida caber numa ficha, o que lhe outorga o direito a ter consciência, mas não podendo dizer nada dela.
É… “João Silva está longe de o saber“, como escreve Pacheco Pereira no post com o título “Uma vida, uma ficha”.João... mais longe do que imagina.
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